Penhorando emoções

Publicado em 25/11/2009

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Por Laís Costa

Cuiabá esconde ruas. Pude perceber isso dias atrás quando acompanhei uma amiga que se auto-intitula um “GPS humano”, ou seja, dotada de alta capacidade de localização geográfica. E vejo que só pessoas assim conseguem andar pelas várias ruas de calçadas de pedras da capital.

Ao longo delas, muitas lojas coloridas que parecem competir sempre. Competem para vender mais que a vizinha; para ser mais colorida que a vizinha; e por fim, para ser mais colorida que o calçamento da rua.

Saímos de uma dessas ruas coloridas e entramos na primeira transversal da avenida mais antiga e mais movimentada, e diga-se uma das mais estreitas, a Getúlio Vargas. Essa rua fica no “pé” da Getúlio Vargas para quem vai em direção à região do Goiabeiras.

Era meio-dia e eu não agüentava mais andar naquele calor. Após poucos segundos da minha última reclamação de cansaço, entramos em uma porta estreita que parecia porta de banco e fica em frente ao restaurante de donos japoneses.

A porta giratória marrom impedia a visão de quem estava lá dentro. Ao entrar, o local pareceu bem menor do pouco que podia ser visto pelo lado de fora da porta. Se tivesse quatro metros quadrados era muito, mas talvez pelo número de pessoas na pequena sala de espera parecesse menor ainda.

Ao contrário dos bancos, onde ao entrar as fileiras de cadeiras estão em sua frente, nesse lugar, ao entrar as cadeiras ficam do lado direito, ou seja, todos são vistos quando entram. As três fileiras estavam todas ocupadas, e ficamos em pé ao lado do bebedor, colocado na outra extremidade da sala.

Além do bebedor, havia uma mesa em frente às fileiras de cadeiras com uma máquina que cuspia senha desesperadamente. Atrás da mesa uma moça pronta para responder as dúvidas, quando elas não existiam a moça ensaiava um sorriso e abaixava os olhos para a revista que estava lendo.

Ao lado da mesa, um segurança sentado em um cadeira e uma samambaia disputavam a atenção de quem passava por ele em direção aos caixas, dispostos atrás da mesa da moça, mas separados por uma parede de gesso.

Percebi que demoraria e minha amiga me informou que era por causa das festas de fim ano. Faltavam menos de cinco dias para o Natal. Normalmente, segundo ela, o atendimento é rápido e a sala só fica lotada nessa época e antes do carnaval.

A minha posição, em pé ao lado do bebedor, facilitou minha visão e análise das pessoas que estavam sentadas. Fui advertida pela minha amiga para ser mais discreta porque algumas pessoas perceberam que eu as olhava e aquele não era o lugar para a minha análise normal de gestos e detalhes.

Entendi que aquele era um momento de perda para muitos deles. Além da dificuldade financeira por qual deveriam estar sofrendo, deixavam ali, além de jóias, os sentimentos que as acompanhavam. Aquele momento no banco era mais uma despedida e um último momento de pensar na história daquele objeto como extensão ou parte do seu corpo.

Quando sentamos em frente ao caixa a atendente pegou um número de um contrato e foi até uma sala. Ao nosso lado, uma senhora entregou o papel e esperava com uma respiração ansiosa para que sua atendente voltasse logo com o saquinho plástico e dentro dele suas lembranças em forma de anéis, colares, pulseiras e pingentes.

Estávamos do lado do “resgate”, das jóias e das lembranças. Pelo pouco que fiquei percebi que nenhuma colocava a jóia imediatamente, talvez precisassem de outro momento para renascer.

A fileira da frente, sem nenhuma divisória, era o local de penhora das jóias. Vi um rapaz sentar em frente ao caixa e tirar uma corrente de ouro amarelo com um enorme crucifixo, muito maior que os normais. Enquanto o atendente fazia o cadastro, o homem olhava a corrente em sua mão e analisava os anéis e a pulseira em seus braços. Quando foi escolher o que colocava na balança, tirou a pulseira, a aliança e somente a corrente. O crucifixo ficou em um compartimento da carteira junto a um “santinho”, talvez assim ele pensasse que teria proteção para voltar e pegar o que deixou. Ou, pelo menos, não levar a única coisa que restava, sua fé materializada no crucifixo.

 

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