Esta reportagem foi realizada em outubro de 2009, na época em que eu cursava Jornalismo na UFMT. Concluí o curso no fim de 2011 e nunca havia publicado esse texto, que considero o meu primeiro contato eficiente e satisfatório com o fazer jornalístico.
Infelizmente não sei o desfecho dos personagens mas espero que estejam bem e reconstruindo suas vidas em outros lugares e sem violência, tanto física como psicológica.
————————————————————————————————-
Toda tarde, quando os três filhos menores estão na escola, Olga* senta em uma cadeira no canto de uma sala, perto da janela, e volta a pousar o olhar perdido nos prédios e carros da movimentada avenida. É o efeito na vida de uma mulher jovem, que aos 33 anos já teve de fugir de dois maridos violentos e que há cinco meses se fecha na Casa de Amparo a Mulheres Vítimas de Violência Doméstica, em Cuiabá.
Sem olhar para as mãos pequenas, que parecem saber o caminho, Olga em poucos minutos desenrola o rolo de barbante e mais uma toalha de mesa vai se formando. Enquanto “crocheta”, ela tenta descobrir como enfrentar o dia seguinte e finalmente encarar seu destino, que acredita estar lá fora.
Desde setembro de 2006, a expectativa de Olga se concentra na Lei Maria da Penha, que pode enfim trazer celeridade judicial contra agressores de mulheres como ela e cria mecanismos de defesa.
Foram instituídas Varas Especializadas, onde os processos tramitam em caráter de urgência, como é o caso de Olga. Antes da Maria da Penha, os processos eram encaminhados ao Juizado Especial e os agressores, na maioria dos casos, pagavam cestas básicas e o ciclo da violência não era quebrado.
Agora, até a pena para os agressores aumentou. O que variava de seis meses a um ano pode chegar até três anos. Buscar a punição para o último de seus dois maridos, que tentou matá-la, tornou-se essencial para que Olga tenha coragem de sair à rua, temor de uma mulher que reúne características típicas das brasileiras violentadas em sua própria casa.
Olga foi vítima do comportamento dominador masculino e do machismo incrustado na sociedade brasileira, apontados pela delegada Silvia Biagi, da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos das Mulheres, como as principais causas da violência doméstica. Noventa por cento dos casos que a delegacia atende são de ameaças por alguém que tenha vínculo afetivo com a mulher: filho, pai, marido ou namorado. Cada palavra da vítima confirma o diagnóstico social.
“Na minha terra mulher é criada para obedecer. Ele me batia como se eu fosse uma boneca. Eu ficava toda machucada, mas não considerava isso errado”, testemunha Olga se referindo ao primeiro marido, com quem se casou aos 15 anos – o primeiro filho veio aos 16. As agressões perduraram por uma década de casamento, veladas por família e vizinhos, que preferiam o silêncio ao alarme da polícia.
Quando a violência ficou insuportável e começou a atentar para sua própria vida, Olga se viu obrigada a empreender a primeira fuga. Ela saiu de Maceió-AL, sua cidade natal, para recomeçar a vida em Barra do Garças, no leste de Mato Grosso, com o apoio dos 11 irmãos.
Dona-de-casa e sem estudo regular, ela sempre dependeu do dinheiro do marido que, segundo a delegada Silvia Biaggi, é o primeiro passo para a violência doméstica. “O agressor procura minar o psicológico da mulher, dizer que ela é incapaz e deixá-la dependente economicamente”, esclarece.
Quando acreditava que seu pesadelo havia acabado, já trabalhando há três anos em Mato Grosso como faxineira e vendendo cosméticos, Olga decidiu se casar novamente. Casou-se com quem seria seu segundo agressor. No primeiro ano do casamento ela engravidou de sua quarta e última filha, Anita, hoje com cinco anos.
Certo dia, ao chegar do trabalho, percebeu que o marido estava drogado. Em poucos instantes, aconteceria a primeira agressão desse casamento. Dessa vez, porém, na frente dos filhos. Recomeçava o pesadelo em sua vida.
Desempregado, o segundo marido se envolveu com drogas e assaltos. “Ele descontava a frustração da vida dele em mim, mas eu não tinha culpa nenhuma”, reclama.
Após sete anos de casamento, Olga resolveu dar mais uma chance ao marido. “Acreditei nele”, conta, arrependida por ter pensado antes no seu casamento que nos filhos. Vendeu seu único bem material em Barra do Garças, sua casa, comprada por seus irmãos, e foi morar na periferia de Cuiabá, no bairro 1° de Março.
Ao contrário das promessas que fez, o marido continuou com as drogas, se envolveu em um assalto e ficou foragido por alguns meses. Quando voltou, fazia ameaças toda vez que ela saia de casa. “Quando ele me via conversando com alguma vizinha ficava morrendo de ódio e me agredia logo que eu entrava em casa”, disse.
A última agressão que ela sofreu foi uma tentativa de assassinato. O marido tentou enforcar Olga, mas ela conseguiu fugir, pela segunda vez. Por três dias perambulou pela cidade sem saber o que fazer da vida.
“Olga chegou na Casa como a maioria das mulheres chegam. Sem nada. Sem documentos, humilhadas e em alguns casos machucadas”, afirma a coordenadora da Casa de Amparo, Eliane Vitaliano. A Casa recebe mulheres em casos especiais, carentes e quando não possuem parentes na capital.
O local é mantido pela Prefeitura de Cuiabá e com doações de alimentos, roupas, calçados. Seis mulheres e vinte crianças recebem assistência hoje. As mulheres com seus filhos ficam na Casa enquanto o processo judicial contra o agressor está em andamento na Vara Especializada de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, de Cuiabá.
Olga admite que poderia ter saído da Casa de Amparo há mais tempo. “Não contei para ninguém que eu estou aqui, meus irmãos pensam que eu estou em Barra do Garças”. A única pessoa que sabe da situação é o filho mais velho, de 17 anos, que mora em uma fazenda na Baixada Cuiabana.
Enquanto a Olga apresenta os demais cômodos da casa, Anita*, a filha mais nova, está na beliche de um outro quarto e chora por pensar que a mãe, a apenas alguns metros dali mesmo – foi embora sem ela. As demais crianças da Casa estão em sua volta e tentam acalmá-la. Quando Anita percebe a mãe, corre e fica agarrada em sua saia. “Agora eu só penso em ir embora com meus filhos, morar em um lugar que ninguém me encontre”, finaliza Olga.
*Nomes fictícios foram utilizados para preservar a identidade dos personagens