Pretendo atualizar o blog com mais frequência este ano, e não modestamente como tenho feito há alguns meses (anos?). Senti que estava faltando a outra parte desta história sobre a minha incursão na fotografia analógica e, acreditem, ela é bem mais alto astral que a do primeiro post!

Após consertar o fotômetro da Nikon FM 10 em um assistência técnica (não tentem fazer em casa! Não dá certo. Eu garanto.) , comprei um filme colorido e saí pelas ruas do centro de Cuiabá, onde eu moro. Esta parte da cidade é onde eu realmente gosto de caminhar para fotografar os casarões, as praças e as pessoas.

O resultado eu apresento abaixo e aproveito para recomendar a camerinha que é uma ótima opção para quem quer começar a fotografar em formato 35mm. Comprei a minha no Mercado Livre e tive muita sorte porque o preço era ótimo e a câmera semi-nova. A lente que vem no kit não tem uma abertura fantástica (mínima 3.5) mas é boa para paisagens e retratos. Não se preocupe que após o primeiro filme você vai enlouquecer querendo uma 50mm ou 35mm 1.8, por exemplo.

Quanto a revelação, fui a um laboratório aqui em Cuiabá mesmo, na Central Foto Digital (onde comprei o filme) e pedi para revelar e gravar em CD. Acho que é a melhor opção porque depois você pode imprimir as fotos que mais gostar e ainda pode publicar sem precisar escanear.

Aí, na mesma linha do descontrole fotográfico, já que a minha (e a sua?) obsessão por câmeras, lentes, filmes e acessórios por fotografia aumenta a cada dia passa  -só não ultrapassa a dos sapatos!- , comprei uma lente Minolta AF 50mm 1.7!!! como presente de Natal, e estou in love total. Mas isso é assunto para o próximo post.

As outras fotos tem no Flickr! É só clicar ali do lado direito.

E essas são as fotos da camerinha com minha lente nova:

Há quatro meses sou motorista habilitada na categoria B pelo Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso (Detran-MT). Demorou tanto para isso acontecer que dá até vergonha de comentar mas,  na verdade, vim falar sobre a quantidades de absurdos que já vi nesse período em que estou me aventurando (isso mesmo) no trânsito de Cuiabá.

Gente, só quem mora ou já veio para saber o quanto é caótico. Não sou daquelas que gosta de ficar gongando a cidade, apenas tenho noção do que acontece e fico bem triste porque praticamente todos os dias várias pessoas morrem em acidentes nas avenidas da capital e da cidade vizinha, Várzea Grande.

Fico muito revoltada com uma situação em especial: a do pisca-alerta, pisca-pisca ou seja lá que nome você entende por aquele sinal intermitente quando acionamos o botão vermelho com triângulo. Pelo amor de deus, aquilo é para ser usado em casos de emergências e não para estacionar em local proibido! 

Na verdade, podemos apreender muito do comportamento humano (humano?) pelas situações que vivenciamos no trânsito e me sinto bem pessimista. Ao mesmo tempo, tento prever mudanças quando a situação chegar em um nível inaceitável (precisa mesmo?) e a sociedade se mobilizar por mudanças, como a que aconteceu em Brasília há uns anos e a imprensa teve papel decisivo nisso, contribuindo com a educação no trânsito.

É só um post desabafo e em caráter de apelo para que repensemos nosso comportamento (o meu, inclusive) e que a nossa cidade se torne um espaço melhor e mais humano.

Tem uma canção composta por Lenine  e Arnaldo Antunes que fala bem sobre tudo isso:

E essa outra do Maurício Baia. Não encontrei um vídeo legal. =(

Autoramas urbanos
Maurício Baia

Escolha a sua equipe
O circuito preferido
Passe a mão no joystick
Clique para iniciar
No cockpit
Ponha o cinto
Baixe o pino
Gire a chave
Dê partida
Tá valendo sua vida
Se você ganhar
Se chover, ligue o desembaçador
Ou passe uma flanela se não funcionar
E diminua a velô
Dos buracos da cidade tente se livrar
Autoramas urbanos
Elevados e pontes e postes e pilares
Encravados na alma de cada cidadão
A transformar em rocha
Seu coração
Quem vê carro não vê gente
Não lê “bebê a bordo”
Na sua frente ninguém pode molengar
O motorista pode ser a tua mãe
Cuidado pra não se auto-xingar
Esbravejando
Dando soco no volante
Dirige de cara feia
Só freia cantando o pneu
Batendo pára-choque com pára-choque
Tome cuidado e não amasse o meu
Batendo pára-choque com pára-choque
Tome cuidado e não amasse o meu
O motor está fumando
Tá muito quente
Quem pode, pode!
Liga o ar condicionado
O pitstop pode ser a solução
Pra beber um copo d’água e colocar um gás
Aproveite que você parou
Levante-se um pouquinho para caminhar
E repare no que você não reparou
Click Start novamente pra recomeçar
Autoramas urbanos
Elevados e pontes e postes e pilares
Encravados na alma de cada cidadão
A transformar em rocha…

No finzinho do dia, uma melancolia tomava conta de todo o seu corpo. Sempre dizia que era a pior parte. Talvez por ser o momento em que o ritmo diminuía e se sentia sozinha. Ligava sempre para todos os filhos, para os irmãos e alguns netos. Se alguém não pedia “bença”, ela tratava logo de abençoar assim mesmo, como se desta maneira conseguisse afastar as coisas ruins e manter a proteção de toda sua família.

Suas mãos, tão pequenas e cuidadosamente enfeitadas com um esmalte rosa cintilante contrastavam com a espessura, atestado do trabalho que realizou durante toda a sua vida, de maneira árdua, e incansável. Nunca teve vergonha e nem preguiça de trabalhar, de acordar cedo.

Na última viagem que fizemos já dava sinais de cansaço. Repetia várias vezes: “nem que seja pela última vez”, e fez tudo que teve vontade pela última vez. Aliás, sempre fez tudo que quis, desde menina.

Hoje, após cinco meses de seu falecimento, sinto saudades do jeito que balançava o copo quando oferecia alguma coisa, das várias sacolinhas plásticas que carregava nas viagens, da mão no queixo quando estava pensando ou tirava fotos. Saudade, saudade! E pensar que várias dessas atitudes me irritavam profundamente e agora fazem tanta falta.

Poderia ter ligado mais vezes, visitado mais vezes, abraçado e dito que amava, mas, agora, só restam o silêncio e as lembranças. Maria, simplesmente Maria, minha querida avó que a sua santinha continue nos dando forças para seguirmos em frente e que conforte o nosso coração.

 Esta reportagem foi realizada em outubro de 2009, na época em que eu cursava Jornalismo na UFMT. Concluí o curso no fim de 2011 e nunca havia publicado esse texto, que considero o meu primeiro contato eficiente e satisfatório com o fazer jornalístico.

Infelizmente não sei o desfecho dos personagens mas espero que estejam bem e reconstruindo suas vidas em outros lugares e sem violência, tanto física como psicológica.

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Toda tarde, quando os três filhos menores estão na escola, Olga* senta em uma cadeira no canto de uma sala, perto da janela, e volta a pousar o olhar perdido nos prédios e carros da movimentada avenida. É o efeito na vida de uma mulher jovem, que aos 33 anos já teve de fugir de dois maridos violentos e que há cinco meses se fecha na Casa de Amparo a Mulheres Vítimas de Violência Doméstica, em Cuiabá.

Sem olhar para as mãos pequenas, que parecem saber o caminho, Olga em poucos minutos desenrola o rolo de barbante e mais uma toalha de mesa vai se formando. Enquanto “crocheta”, ela tenta descobrir como enfrentar o dia seguinte e finalmente encarar seu destino, que acredita estar lá fora.

Desde setembro de 2006, a expectativa de Olga se concentra na Lei Maria da Penha, que pode enfim trazer celeridade judicial contra agressores de mulheres como ela e cria mecanismos de defesa.

Foram instituídas Varas Especializadas, onde os processos tramitam em caráter de urgência, como é o caso de Olga. Antes da Maria da Penha, os processos eram encaminhados ao Juizado Especial e os agressores, na maioria dos casos, pagavam cestas básicas e o ciclo da violência não era quebrado.

Agora, até a pena para os agressores aumentou. O que variava de seis meses a um ano pode chegar até três anos. Buscar a punição para o último de seus dois maridos, que tentou matá-la, tornou-se essencial para que Olga tenha coragem de sair à rua, temor de uma mulher que reúne características típicas das brasileiras violentadas em sua própria casa.

Olga foi vítima do comportamento dominador masculino e do machismo incrustado na sociedade brasileira, apontados pela delegada Silvia Biagi, da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos das Mulheres, como as principais causas da violência doméstica. Noventa por cento dos casos que a delegacia atende são de ameaças por alguém que tenha vínculo afetivo com a mulher: filho, pai, marido ou namorado. Cada palavra da vítima confirma o diagnóstico social.

“Na minha terra mulher é criada para obedecer. Ele me batia como se eu fosse uma boneca. Eu ficava toda machucada, mas não considerava isso errado”, testemunha Olga se referindo ao primeiro marido, com quem se casou aos 15 anos – o primeiro filho veio aos 16. As agressões perduraram por uma década de casamento, veladas por família e vizinhos, que preferiam o silêncio ao alarme da polícia.

Quando a violência ficou insuportável e começou a atentar para sua própria vida, Olga se viu obrigada a empreender a primeira fuga. Ela saiu de Maceió-AL, sua cidade natal, para recomeçar a vida em Barra do Garças, no leste de Mato Grosso, com o apoio dos 11 irmãos.

Dona-de-casa e sem estudo regular, ela sempre dependeu do dinheiro do marido que, segundo a delegada Silvia Biaggi, é o primeiro passo para a violência doméstica. “O agressor procura minar o psicológico da mulher, dizer que ela é incapaz e deixá-la dependente economicamente”, esclarece.

 Quando acreditava que seu pesadelo havia acabado, já trabalhando há três anos em Mato Grosso como faxineira e vendendo cosméticos, Olga decidiu se casar novamente. Casou-se com quem seria seu segundo agressor. No primeiro ano do casamento ela engravidou de sua quarta e última filha, Anita, hoje com cinco anos.

Certo dia, ao chegar do trabalho, percebeu que o marido estava drogado. Em poucos instantes, aconteceria a primeira agressão desse casamento. Dessa vez, porém, na frente dos filhos. Recomeçava o pesadelo em sua vida.

Desempregado, o segundo marido se envolveu com drogas e assaltos. “Ele descontava a frustração da vida dele em mim, mas eu não tinha culpa nenhuma”, reclama.

Após sete anos de casamento, Olga resolveu dar mais uma chance ao marido. “Acreditei nele”, conta, arrependida por ter pensado antes no seu casamento que nos filhos. Vendeu seu único bem material em Barra do Garças, sua casa, comprada por seus irmãos, e foi morar na periferia de Cuiabá, no bairro 1° de Março.

Ao contrário das promessas que fez, o marido continuou com as drogas, se envolveu em um assalto e ficou foragido por alguns meses. Quando voltou, fazia ameaças toda vez que ela saia de casa. “Quando ele me via conversando com alguma vizinha ficava morrendo de ódio e me agredia logo que eu entrava em casa”, disse.

A última agressão que ela sofreu foi uma tentativa de assassinato. O marido tentou enforcar Olga, mas ela conseguiu fugir, pela segunda vez. Por três dias perambulou pela cidade sem saber o que fazer da vida.

“Olga chegou na Casa como a maioria das mulheres chegam. Sem nada. Sem documentos, humilhadas e em alguns casos machucadas”, afirma a coordenadora da Casa de Amparo, Eliane Vitaliano. A Casa recebe mulheres em casos especiais, carentes e quando não possuem parentes na capital.

O local é mantido pela Prefeitura de Cuiabá e com doações de alimentos, roupas, calçados. Seis mulheres e vinte crianças recebem assistência hoje. As mulheres com seus filhos ficam na Casa enquanto o processo judicial contra o agressor está em andamento na Vara Especializada de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, de Cuiabá.

Olga admite que poderia ter saído da Casa de Amparo há mais tempo. “Não contei para ninguém que eu estou aqui, meus irmãos pensam que eu estou em Barra do Garças”. A única pessoa que sabe da situação é o filho mais velho, de 17 anos, que mora em uma fazenda na Baixada Cuiabana.

Enquanto a Olga apresenta os demais cômodos da casa, Anita*, a filha mais nova, está na beliche de um outro quarto e chora por pensar que a mãe, a apenas alguns metros dali mesmo – foi embora sem ela. As demais crianças da Casa estão em sua volta e tentam acalmá-la. Quando Anita percebe a mãe, corre e fica agarrada em sua saia. “Agora eu só penso em ir embora com meus filhos, morar em um lugar que ninguém me encontre”, finaliza Olga.

 *Nomes fictícios foram utilizados para preservar a identidade dos personagens

Encontrei o cineasta Domingos Oliveira hoje perto da fonte do Parque Lage. Discutimos um bom tempo sobre como chegar a fonte. Na verdade, em alguns momentos até pensei que estávamos no Jardim Botânico mas logo reconheci o “castelo” do Parque.

Entre os últimos momentos que consigo recordar, nós dois começamos a conversar poéticamente na linguagem Manoelês (originada das poesias do Manoel de Barros. Não me dia que não conhece?!!!). A partir daí, parecia mais um filme do Buñuel ou ainda que o Dalí apareceria em poucos instantes para se juntar a nós.

“O violão enlatizou. Agora ninguém precisa cascá-lo enquanto toca. Mas Laís Costa não é nome de poetisa!”. Esta é uma das frases da conversa que eu consigo lembrar porque saí correndo do sonho para poder anotar em algum lugar. Se tivesse um bloquinho não precisaria ter acordado.

Após acordar fiquei um tempo pensando sobre o significado de todas as coisas, pessoas e referências que consegui identificar no sonho. Ou melhor, nesta última parte, em especial.

2011 começou como um ano especial, de novas conquistas, novos objetivos e novos sonhos que seriam realizados e daria lugar a outros milhares de sonhos, mas os prioritários seriam postos em prática. Eis que a implacável dona morte aparece em minha família e retira do convívio uma das pessoas que mais amei, minha avó materna. Ainda tenho dificuldades em retomar alguns objetivos e sonhos. Sair da estagnação e ousar mais, já que ultimamente a única ação ousada que tenho praticado é colocar o iPod no modo aleatório (exageeeeeero!).

Próximo post será sobre o Rio de Janeiro e com muitas fotos de lugares que eu amo desde sempre mas ainda não conheço, como o Parque Lage.

Não sei se tenho leitores rotineiros, até porque tenho postado modestamente há alguns meses, anos… Mas pretendo retomar o Reconvexo com muitas divagações, e assuntos que levem um pouquinho de encantamento ao cotidiano de vocês!

Tem momentos na vida (ou um episódio em especial) em que você encontra a atividade que proporciona mais prazer e felicidade e algumas pessoas conseguem unir tudo isso em uma profissão.
Durante algum tempo pensei que poderia chegar a este nirvana utilizando a fotografia. Após refletir sobre as minhas opções e opotar por outros caminhos, a fotografia ocupou (e ocupa) um lugar paralelo as outras atividades.
Estou sobrevivendo, há alguns meses, a tentativas frustadas de uma imersão no mundo fotográfico analógico. Estraguei filmes, gastei muito dinheiro e lágrimas com vários episódios lamentáveis. Um deles aconteceu esta semana: perdi um filme por superexposição.

Desconfio que foi erro do laboratório no momento da revelação mas como tenho um pé no pessimismo, achei que poderia ser alguma função desregulada na câmera. Eis que, de alguma maneira misteriosa, o fotômetro PAROU de funcionar. Não, não é a bateria, já que comprei uma cartela e testei todas elas.
sei que esta não é a melhor maneira de tentar retomar este espaço mas precisa compartilhar a minha tristeza.
Talvez alguns de vocês percam a paciência com os meus episódios fotográficos e não terminem de ler o texto ou não voltem a este blog ou talvez questionem a razão de continuar fotografando.Ou talvez não façam questão de saber. Mas eu respondo da mesma maneira: eu encontrei a fonte que traz encantamento a minha existência.
Terminaria o post assim mas faço um apelo para quem puder me auxiliar na resolução do último problema. A minha câmera é uma Nikon FM 10.

Ps: Levei a câmera a uma assistência técnica e o problema foi resolvido. Uma das baterias tinha “envelhecido” dentro da câmera e prejudicou o funcionamento do fotômetro.

Tem dias que saímos de casa para ir ao trabalho, faculdade e não pensamos em coisas belas que acontecem a todo momento e que podem ser únicas em nossas vidas.

Aconteceu comigo há algumas semanas em uma das aulas da faculdade de ver este belíssimo vídeo. Ganhei 19 minutos do meu dia e ainda um espaço diário de reflexão sobre as pequenas coisas da vida e sobre o que as pessoas de único para contar.

Enjoy!

Ps: embaixo do vídeo tem a opção de colocar legenda.

http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

Há alguns anos comecei a procurar livros e músicas que pudessem me mostrar a Índia étnica, não a pop. Encontrei onde menos poderia imaginar: em um programa da TV Câmara chamado “Talentos”. Na edição do programa o grupo Mawaca se apresentava com três irmãs cegas, as ceguinhas de Campina Grande.

A partir desse dia eu descobri um dos grupos que me fizeram perceber a magia e a força dos cantos étnicos. De lá pra cá, já fazem uns cinco anos do programa “Talentos”, virei fã incondicional do Mawaca mas ainda não fui a nenhum show do grupo, infelizmente.

Mawaca é formado por sete cantoras que também tocam vários instrumentos e fazem performances de canções antigas com muita propriedade e singularidade. As canções são desde as hebraicas até as cantadas por índios brasileiros.

Conheça o Mawaca:

Além do Mawaca, outro grupo que me agrada muito é o Debka Fantasia que interpreta canções hebraicas.

Essa música também foi interpretada por Nina Simone com um toque de jazz.

Música étnica nos proporciona conhecer a sonoridade singular das línguas e etnias. Ouça, sem pré-conceitos nem preconceitos.

“Não se passa um só dia em que algum aspecto daquela experiência não lance uma sombra em minha mente”, disse o escritor americano Truman Capote a respeito do seu livro de não-ficção “A sangue frio”, de 1965. A experiência a que Capote se refere foi a história que descreve no livro: o assassinato de quatro membros da família Clutter, que moravam em uma fazenda no estado americano do Kansas.

Os assassinos, dois ex-presidiários Perry Smith e Dick Hicock, nos conduzem pelos acontecimentos de sua vida que culminaram no crime. Capote desenvolve o perfil psicológico dos dois até o momento final, causando uma confusão de narradores em vários momentos.

Capote construiu minuciosamente a descrição do assassinato, e ficou mais de um ano entrevistando moradores da cidade de Garden City, que fica próxima à fazenda dos Clutter. Durante as entrevistas, Capote não usava os objetos considerados básicos de um repórter: bloco de anotações, caneta e gravador. Essa é mais uma das peculiaridades do escritor que defendia o não uso dos objetos para conseguir depoimentos sem a interferência que um gravador, por exemplo, pode causar no entrevistado como o fim da naturalidade de uma conversa normal.

Ao ler o livro percebe-se que a técnica funcionava, já que policiais, amigos e parentes – das vítimas e dos assassinos – contribuíram para a construção da narrativa. Além dos próprios presidiários, que se comunicaram constantemente com o escritor durante o tempo em que ficaram presos.

Não é nenhuma exagero considerar a obra um clássico do new journalism, que é um gênero jornalístico em que um fato noticioso é narrado com características literárias, entre elas, construção de enredo com personagens mas não necessariamente dentro de padrões narrativos como o lead das notícias, mas com liberdade para organizar de maneira menos burocrática e fixa.

Alguns jornalistas afirmam, no pós-fácio do A sangue frio, que o método utilizado por Capote tinha falhas. Uma delas era quanto ao conteúdo das entrevistas. Alguns entrevistados, ao ver o livro pronto e o seu nome dentro do enredo não confirmaram suas declarações e, alguns, discordaram totalmente do que Capote havia escrito em relação ao depoimento que haviam dado ao escritor.

Essa crítica foi constante durante a vida do escritor. Muitos diziam que, por ele não ter provas materiais das declarações, e escrever baseando-se em formato literário, nem tudo que era publicado poderia ser considerado verídico. Outros defendem o escritor dizendo que, como jornalista, Capote poderia interpretar o que o entrevistado disse e não citar de forma literal e direta.

Entre todos os trabalhos de Capote, A sangue frio é destaque merecido, sendo recomendado de jornalistas para jornalistas, além de ser indicado por professores aos estudantes de jornalismo. É um dos livros presentes nas bibliotecas e acervos de jornalistas que seguem o estilo do new journalism.

Em meio a tantas polêmicas, como escritor e sobre sua vida particular, Capote teve inspiração em um provérbio árabe para responder a todos os críticos de suas obras literárias: “Os cães ladram, mas a caravana passa”. Nesse caso, Capote é o único componente da “caravana”, e apesar de vagar por várias cidades durante sua vida, como se estivesse perdido em um imenso deserto, cultivava a esperança de sempre retornar ao oásis. No caso dele, a cidade de New York.

O livro tem 440 páginas e foi editado pela Companhia das Letras, custa em média R$55,00.